Para o maior amor do mundo:
O que eu entendo da
vida é muito pouco, diante daquilo que ela representa só por você estar
nela. Agora eu sei o que é o amor. E amar você é o meu caminho.
Às vezes a gente acha que não vai dar
conta do peso e da responsabilidade que é cuidar de uma vida frágil e
inocente. Que não vai sobreviver aos dias estressantes e às noites mal
dormidas. Que não vai suportar a falta de espaço dentro de casa. Que
nunca mais vai conseguir tomar um banho, desses revigorantes e
demorados, que lavam a alma, sem que tenha alguém atrás da porta
chamando, insistentemente, pelo seu nome. Que não vai resistir ao caos
de uma vida confusa e algumas vezes solitária, não pela falta de pessoas
amigas, mas pelo tamanho da responsabilidade que é essa missão
individual e intransferível, que a gente assume logo quando recebe o
resultado positivo. Ser mãe não é fácil, não. Eu sei… Mas só descobri
isso, sendo. E para algumas mulheres a missão se torna quase impossível,
quando precisam se virar sozinhas, mas o que mais querem é alguém para
fazer companhia e dizer em tom de certeza, que tudo vai dar certo. Ser
mãe requer muito esforço e uma dose considerável de coragem, para se
desfazer de coisas antigas, como hábitos, conceitos, algumas
irresponsabilidades; para abrir mão de alguns sonhos; para deixar de ser
só você e se transformar em um “nós”, que por alguns anos dependerá de
você e só. Não é fácil ter que encaixar uma vida dentro da sua, quando
você ainda nem decidiu de fato a sua vida. Quando você sequer adormeceu o
medo atávico de não dar certo, por não ter ainda acordado no dia
seguinte com aquela certeza, quase incontestável, de que o caminho que
escolheu é o melhor e o mais seguro. É… Confesso que às vezes a minha
coragem falta. Não por ser frágil demais para essa vida de entregas e
renúncias. Não por temer o caminho, porque verdade seja dita: Quem tem
certeza de que está no caminho certo? A gente só descobre o caminho,
seguindo… Falta coragem mesmo, não por não ter fé, mas por me sentir
pequena demais, para dar conta e acolher um sentimento cujo tamanho é
não ter tamanho. É não caber. É transbordar para além de qualquer limite
possível.
Por outro lado, do mesmo jeito que falta,
a coragem sobra. E aumenta. E me transforma na pessoa mais corajosa do
mundo, cada vez que olho nos olhos dela e vejo ali o reflexo do que é a
verdadeira felicidade. Essa coisa inocente, contagiante e otimista, que
faz a gente desejar sorrisos e alegrias, todos os dias, ainda que a
vontade de chorar, por medo de fraquejar – ou por tristeza mesmo – nos
invada de vez em quando. A coragem sobra, cada vez que ouço a sua voz
dizendo o que agora é o meu sobrenome: mamãe. A coragem sobra, cada vez
que eu recebo aquele abraço de tirar o fôlego da alma e os pés do chão.
A coragem sobra, cada vez que ela está e eu a percebo em mim, estando
perto ou não. Cada vez que eu volto para casa depois de um dia cheio e
me sinto, verdadeiramente, em casa. E aí eu percebo que qualquer coisa
além do espaço que ela ocupa em mim, não faz a menor diferença. Porque
ela é o meu caminho. E não saber o caminho não tem importância alguma
quando você se descobre mãe. É esse o caminho, entende? É esse o lugar
que te leva para outros lugares. E te faz realizar, enquanto os filhos
ainda sonham. Ser mãe é a direção que mantém a sua vontade, irredutível,
de seguir adiante; a sua vontade de colorir o lugar que você escolheu
ficar e se abrigar logo no primeiro suspiro. Logo no primeiro choro.
Logo no primeiro encontro. E enquanto tentamos sobreviver ao mundo e às
urgências lá fora. E quando tudo aperta e dói. É lá, neste lugar mais
bonito e confortável do mundo, chamado amor de filho, que você se
aconchega e esquece de todo o resto.
Agora, estando do lado de cá, eu não sei
dizer qual amor é maior: Amor de mãe ou amor de filha. Porque amo a
minha mãe de um jeito inexplicável. De um jeito que, quando vejo o meu
mundo sem ela, é como se o chão abandonasse os meus pés. E é ela quem
verdadeiramente está ao meu lado o tempo todo, o meu anjo da guarda, que
me ajuda a cuidar da parte mais importante de mim: a minha filha. Mas
eu, na condição de mãe, só sei dizer que o amor que eu sinto pela minha
filha, me cala. E me cala de um jeito que sufoca, porque a vontade de
dizer é muito maior do que esse nó, que a falta de uma palavra precisa
dá na minha garganta. Contraditoriamente, eu respiro aliviada, por
entender que sentimentos sublimes e inalcançáveis, não são fáceis mesmo
de se traduzir. Porque qualquer palavra pronunciada pode interferir no
seu verdadeiro significado, entende? É como se qualquer palavra fosse
pequena demais para alcançar as proporções gigantescas de um sentimento
tão meu. Tão sólido. Tão farto, que se sobrepõe a qualquer outro que eu
carregue dentro de mim. Que se sobrepõe ao meu medo de errar; de faltar;
de não ser o melhor que eu sonho ser, só para que ela se orgulhe de
mim, de um jeito que eu mesma nunca me orgulhei.
Eu não sei se estou certa. Ou errada. Ou
se exagero nessa vontade de amor. Nessa vontade de amar. Mas eu sei que a
gente sobrevive e se acostuma com essa bagunça que se transforma a
nossa vida. E sobrevive porque reconhece e sabe que tem o maior amor do
mundo. É… Eu tenho, sim, o maior amor do mundo, e com ele uma gratidão
imensa, por ter sido escolhida para abrigar a vida dela, quando eu ainda
era só uma filha. Ela chegou como um presente, que eu desembrulhei para
encontrar dentro dele o sentido da minha vida. E hoje, quase três anos
depois, eu não imagino mais a minha vida sem ela. Ela é o meu caminho e a
minha direção. Ela é a minha paz e o meu conforto. Ela é a minha
extensão e a minha continuidade. E o meu sorriso é o resultado desse
amor que me completa e me fez melhor, ainda que eu não seja